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Aikido: uma saudação matinal

Um sorridente senhor de cabelos brancos desejava bom dia aos caminhantes aleatórios que passavam por aquela pequena rua. Ele trajava um impecável keiko gi branco – amarrado com uma faixa preta, mas sem o usual hakama. Sua tarefa naquele instante era apenas uma: colocar o lixo para o lado de fora da casa. Ninguém imaginaria que uma missão tão trivial, naquela manhã de verão em Tóquio, estava por conta de alguém tão importante. Aquele homem que lidava com o lixo era, na verdade, ninguém menos que Moriteru Ueshiba, o Doshu.

Essa cena prosaica aconteceu na ruazinha onde fica o Hombu Dojo, sede mundial do Aikido – onde, momentos antes, o Doshu ministrava o primeiro treino da manhã. Tudo que sempre soube a respeito dele foi por intermédio de textos, relatos ou entrevistas. E, sendo o Doshu a própria personificação da tradição do Aikido, sempre o imaginei como um homem distante e inacessível no inimputável altar de suas altas atribuições administrativas. Ledo engano.

Na verdade, ele é uma pessoa de extremo carisma. Detentor de um inabalável bom humor, seus treinos eram todos em clima descontraído. E, não raramente, encontrei-o pelo tatami compartilhando risadas com os demais praticantes. Do que exatamente eles riam? Não faço a menor ideia – entender piadas em japonês, afinal, ainda está num horizonte deveras distante para meu vagaroso aprendizado dessa complexa língua. Mas, seja lá qual for o motivo das gargalhadas, o fato é que todos ali se sentiam bem na agradável presença daquele senhor tão simpático.

“E vocês, aí, estão cansados? Querem uma água?”, perguntou ele a mim e a meu companheiro de treino, em japonês (que só entendi, é claro, porque o colega prontamente me traduzira a indagação). “Se forem desmaiar, só tentem não desmaiar no tatami”, brincou o Doshu.

Ele fazia referência ao inclemente calor que nos castigava por aqueles dias. Bem que fui alertado. Antes de viajar, o sensei Luis Gentil, com quem treinei no Rio de Janeiro, foi enfático: “Olha, o verão em Tóquio pode, em alguns dias, ser mais quente que o verão carioca!”. Achei que estava blefando. Não estava.

Além dos treinos com o Doshu, tivemos a honra de treinar com seu filho. Seu nome é Mitsuteru Ueshiba. Ele também é chamado de Waka-sensei, termo que significa, em tradução livre e simplória, algo como ‘o sucessor’. Uma dúzia de outros senseis também integravam aquele time de primeira linha: Suzuki-sensei, Kanazawa-sensei, Fujimaki-sensei, Seki-sensei, Oyama-sensei… Acho que, ao todo, são quase uns dez horários de treino por dia. Dá para suar muito praticando Aikido por lá.

O Hombu Dojo parece ser uma espécie de Meca para aikidoístas de todo o globo. O clima é cosmopolita. Praticantes de diversos países zanzavam por aqueles tatamis – alguns por apenas uns dias; outros, por longas temporadas que podiam variar de meses a anos. A propósito, a japonesada vivia brincando com um italiano que passava um tempo por lá: “Bonjorno gozaimasu”, era a saudação matinal que um deles sempre pronunciava enquanto nos preparávamos no vestiário, misturando os dois idiomas em clima de brincadeira.

Eis que, ao final de um dos treinos, ouço um pessoal falando uma língua que me era bem familiar: eles papeavam em claro e bom português! Assim conheci o sensei Maruyama, sua esposa e dois outros praticantes de São Paulo. Dizem que é muito frequente a presença de brasileiros nos tatamis do Hombu Dojo.


As aulas, o kihon e a ritualística

Foi bacana notar que, no geral, tudo que pratiquei no Japão foi muitíssimo parecido com o que praticamos regularmente aqui em Curitiba sob a orientação do sensei Rodolfo. Dava até para se sentir em casa. Isso me fez refletir: talvez o Aikido seja uma grande unidade, dentro da qual coexistem eventuais diferenças interpretativas e metodológicas. Mas, ao fim das contas, as semelhanças parecem ser muito maiores do que as diferenças.

Na verdade, tudo que vi, presenciei e treinei no Hombu Dojo pode ser resumido em apenas uma palavra: kihon. Simplesmente o kihon; nada mais que o kihon. Não interessa se a aula era do Doshu, do Waka-sensei ou de qualquer outro instrutor. Todos eles, sem exceção, ensinavam aqueles movimentos essenciais que compõem o repertório básico de todo o aikidoísta. Nenhuma firula. Nenhuma extravagância técnica. Apenas o básico – que, penso eu, já é mais que suficiente para ocupar os dias de um praticante por longos e longos anos. Ou talvez pela vida toda.

Quanto à parte, digamos, ritualística, notei que o pessoal do Hombu Dojo é bastante prático. As saudações são poucas e breves, tanto ao início quanto ao final dos treinos. E as faixas são todas brancas ou pretas. Por algum motivo, o sistema de cores para designar diferentes kyus não parece comum por lá. Contaram-me certa vez que a adoção das cores se deu apenas no Ocidente, por alguma espécie de adaptação didático-cultural.

No Hombu Dojo, é elevadíssima a quantidade de praticantes por metro quadrado. Nunca vi tanta gente treinando ao mesmo tempo. E, nalguns casos, o dia todo! É, suponho, provavelmente por conta dessa alta ’densidade demográfica’ que por lá não nos posicionamos pela ordem de graduação. Faz sentido: num ambiente em que muitos dos aikidoístas sequer se conhecem – já que há tanta gente e tanta rotatividade – seria bastante difícil saber quem é mais novo e quem é mais antigo na casa. Em algumas das aulas, especialmente nas ministradas pelo Doshu, quase uma centena de cabeças dividia o tatami. É um bocado de gente. E o espaço não é tão maior que a sede do Aikido Paraná. É preciso, portanto, ser bastante econômico com a amplitude dos movimentos. Cair em mae ukemi? Cuidado: melhor não arriscar uma trombada com a dupla mais próxima. E, por ‘mais próxima’, entenda-se ‘a não muitos centímetros de distância à frente, atrás, à direita e à esquerda’. Acho que essa economia de espaço não deixa de ser um bom aprendizado do ponto de vista técnico. Pois concentrar-se não apenas no movimento, mas também na dinâmica das demais duplas que treinam no entorno, passa a ser um detalhe vital.

As aulas se dividem em duas categorias: as classes regulares e as classes para iniciantes. Mas, na verdade, tanto veteranos quanto novatos frequentam ambas. Existem também – pelo que verifiquei no site do Hombu Dojo – aulas especiais para mulheres e para crianças, se não me engano.

Das aulas regulares, as que mais me impressionavam eram as ministradas pelo Suzuki-sensei. Seus movimentos, ainda que fulminantes, eram de uma beleza quase artística. Um verdadeiro espetáculo visual. Ele era muito rápido na aplicação das técnicas – e, ainda assim, o grau de conexão e o nível de sincronia que ele atingia com seus ukes era algo particularmente notável. Se por um lado eu me sentia honrado ao participar de todos aqueles treinos no Hombu Dojo, por outro eu me sentia, em alguns momentos, como um violinista amador ensaiando com a Orquestra Filarmônica de Berlim.

Ainda sobre as classes regulares: o ritmo é quase sempre o mesmo. O instrutor demonstra o movimento quatro vezes somente; e, em seguida, todos praticam por longos minutos. Enquanto isso os senseis, cada um a seu modo, caminham pelo tatami e corrigem os praticantes. Alguns gostam de explicar os movimentos em linguagem verbal. Outros preferem apenas demonstrar corporalmente, sem muita conversa.

Já nas classes para iniciantes, as explicações são um pouco mais detalhadas – mas não muito. E os fundamentos são praticados com bastante ênfase. Em um dos treinos dados pelo Waka-sensei, por exemplo, ele parecia bastante empenhado em nos transmitir a importância de algo extremamente básico: o gyaku hanmi tenkan. Ele reforçava a relevância dessa movimentação, uma vez que, a partir do posicionamento resultante, dezenas de técnicas podem ser desenvolvidas.

Outro exemplo: em um de seus treinos, Fujimaki-sensei nos instruiu a praticar com bastante diligência a primeira parte da entrada omote contra a aplicação de um shomen uchi. Apenas a primeira etapa: um sutil sobrepasso adiante enquanto os braços, sempre estendidos embora levemente curvados, conduzem o braço do uke para frente de modo a garantir uma posição de dominância. Em seguida, após boa parte da aula praticando esse pequeno grande detalhe, demos sequência ao estudo do kihon. Um parêntese: Fujimaki-sensei, que aparenta ser bastante jovem, é particularmente carismático e atencioso com seus alunos. Após ter notado que meu japonês é provavelmente tão bom quanto meu aramaico, ele diversas vezes veio até mim e explicou detalhes das técnicas em inglês. Era um sujeito pra lá de bem humorado. E não perdeu a piada: “Essa sua barba, aí, é esquisita mas até que é estilosa, hein?”, disse-me ele, descontraído.

Apesar das pequenas diferenças entre as classes regulares e as classes para iniciantes, há um elemento comum a todas as aulas. Em ambos os casos, os movimentos finais eram sempre os mesmos: swari waza kokyu ho; e haishin undo. Praticávamos essas duas técnicas ao final de todos os treinos, sem exceção.

Falando nisso, tamanha a minha surpresa quando uma senhorinha se aproxima de mim e diz “onegaishimasu”, sugerindo que eu fizesse dupla com ela para praticarmos o haishin undo. “Isso não vai dar certo”, penso com meus botões. Tenho 1,86 m. E peso quase 90 kg. A simpática praticante nipônica, já idosa, tinha talvez metade de minha altura; e provavelmente metade de meu peso também. “Bah, ela vai virar uma pizza se resolver me levantar”, cogito em silêncio. Mas não é que a destemida senhora me ergueu para o ar me sustentou com impecável técnica e absoluta desenvoltura? Não aguentou por muito tempo, tudo bem – talvez uns 4 segundos. Mas o feito foi decididamente astuto para alguém de um metro e meio de altura e aparentemente – enfatize-se o ‘aparentemente’ – desprovida de grande força física.


Sobre elas

Falando em mulheres, chama a atenção a quantidade de moças e senhoras que se vê pelo Hombu Dojo – e também pelos demais dojos que visitei na Coreia e na China. Em um deles, em Shanghai, fiquei impressionado: a estimativa visual é imprecisa, mas talvez 50% da ocupação daquele dojo era feminina – incluindo, diga-se, a própria Nokura-sensei, uma das responsáveis pelo International Aikido Club. Ela é uma mulher cativante e interessantíssima! Sua técnica foi uma das coisas mais belas que vi durante os dois meses em que estive viajando. Sintética; resoluta; precisa; harmoniosa; intensa e delicada ao mesmo tempo. Movimentos de extrema beleza – e implacável eficácia – eram demonstrados pela Nokura-sensei. Seu timbre de voz era doce e suave, e seu sorriso era onipresente na execução de cada detalhe dos movimentos.

Fiquei particularmente intrigado com as lições de shikko que a Nokura-sensei nos deu. “Vocês estão fazendo um pouco de barulho enquanto encostam os joelhos no chão”, advertiu ela a um grupo de praticantes do qual eu fazia parte. Para ela, o caminhar em shikko deveria ser tão suave quanto silencioso. Tudo que deveríamos ouvir era o leve arrastar provocado pelo suave atrito entre o keiko gi e o tatami. Para aqueles de nós que ainda não estavam na linha, a solução foi radical: ela nos dirigiu para um espaço, no canto da sala, onde havia estranhos paletes de metal. Eram como caixas ocas enfileiradas, feitas provavelmente em alumínio. Missão: andar em shikko ao longo dos cinco ou seis metros sobre aquele duro caminho de caixas metálicas. Logo entendi o motivo. É que, devido à acústica interna da estrutura oca, qualquer ruído originado a partir do contato entre os joelhos e a superfície era amplificado. A tarefa era, portanto, tentar caminhar por aquele chão de metal de modo que os joelhos tocassem os paletes da forma mais suave e silenciosa possível. É assim que a Nokura-sensei ensina seus alunos a caminhar em shikko.

Outra curiosidade: na China, por irônico que pareça, a prática do Aikido ainda é recente. Foi apenas nos últimos dez anos que essa arte começou a ser ensinada lá – mesmo sendo o país tão próximo ao Japão. Mas essa proximidade é apenas geográfica. Politicamente, há desentendimentos históricos que fazem da relação entre esses dois países algo não tão amistoso. “A China sempre foi uma nação muito fechada a influências externas”, explicou-me um senpai. “Provavelmente esse é o motivo pelo qual o Aikido só começou a ser praticado aqui nessa última década.” Isso me fez pensar: como brasileiros, que grande sorte tivemos! Conhecemos o Aikido na década de 1960, quando a arte foi introduzida em nosso país. Desde então, algumas gerações de senseis já foram formadas – e penso que devemos ser muito gratos aos que nos antecederam ao longo dessas quase seis décadas. Os amigos chineses não tiveram a mesma sorte. Mas é bom saber que eles hoje, se assim desejarem, também podem trilhar o caminho. A propósito, o caractere que em japonês é pronunciado como do (道) é derivado do termo chinês dao (também representado por 道), que, por sua vez, também conhecemos aqui no Ocidente como tao. É, de fato, o mesmo tao que se faz presente no termo ‘taoísmo’. Essa relação não é mera coincidência. Pois o do, nas origens etimológicas da palavra, não significa apenas ‘caminho’. Na milenar tradição taoísta, o tao ou o dao (ou, na versão japonesa, o do) assume uma interpretação bem mais sutil e – por que não? – bem mais hermética: ele simboliza o próprio espírito do inefável; o incessante fluxo universal; os domínios inatingíveis do todo; a senda espiritual que conduz à essência do indefinível.

Voltando ao assunto… Eu falava sobre a notável presença de tantas mulheres que encontrei nos dojos pela Ásia. E, coincidência ou não, na capital coreana também fui recebido por uma representante do sexo feminino. Era a Mee Yae Shin-sensei. Treinamos diversas formas de ni kyo, além de sequências bastante didáticas de san kyo e yon kyo. E o pessoal na Coreia – terra do Tae kwon do – não brinca em serviço. O treino é bastante intenso, e não tem essa de cair de maduro, não.

Era sábado. Eu tinha acabado de chegar ao país após quase trinta horas de voos e conexões. Talvez não tenha sido uma decisão sábia do ponto de vista metabólico, mas, assim que saí do aeroporto, deixei as coisas no hotel e me mandei para o dojo – mais ou menos como um zumbi perambulando pelas ruas de Seul a procurar o endereço do local de treino, que era bem escondido. E pegar metrô com instruções em coreano, sob tais circunstâncias, também não foi algo memorável. Mas, sabe-se lá como, cheguei a tempo. Tudo pareceu se normalizar com o início dos primeiros exercícios e, ao final do treino, já nem me lembrava mais do cansaço provocado pela viagem. E quase saí do dojo falando coreano fluentemente, tamanha a simpatia do pessoal e da Mee Yae Shin-sensei.

Mas foi em Kyoto que tive a experiência mais interessante com relação às mulheres no Aikido. Praticante assídua da meditação Zen, Yoko-sensei é uma daquelas pessoas cuja presença de espírito fica em algum ponto entre o marcante e o inesquecível. E seu dojo é lindo! Na verdade, foi sem dúvida um dos locais mais agradáveis que visitei na antiga capital japonesa. Mais tarde, numa dessas pesquisas de internet, fui descobrir que a Yoko-sensei é uma pessoa muito conhecida no mundo do Aikido. Chegaram a fazer um pequeno documentário com ela, disponível no YouTube. No dojo, o pessoal mantém um livro de visitas para registrar a passagem dos forasteiros errantes de outras nações que se aventuram naquele tatami. O livro tem páginas e mais páginas de assinaturas de visitantes; já andou por lá gente de tudo quanto é canto do mundo.

Por incrível que pareça, é difícil dizer com precisão o que exatamente é tão fascinante naquele pequeno dojo. Será o espírito meditativo que impera por aqueles ares? Será a cordialidade dos praticantes que me receberam com tanta gentileza? Será a serenidade e a sabedoria da Yoko-sensei? Será a soma da tradição do Aikido com o contexto do clima ancestral que caracteriza Kyoto? Não sei. Mas se um dia eu voltar ao Japão, com certeza voltarei a esse tão agradável dojo.


Reflexões

Não importa onde seja. Em todos os dojos que já visitei – Brasil, Tailândia, Filipinas, China, Coreia e Japão – sempre fui recebido com muito respeito, com muita gentileza e com muita cordialidade. Nunca presenciei nenhuma postura de sectarismo – tal palavra não parece combinar muito com o Aikido. Certa vez, um colega me disse algo como “Legal, mas meu sensei não gosta quando treinamos em outros dojos”. Fiquei pensativo. Já em outra ocasião, outro senpai me disse o seguinte: “Treine bastante em diferentes lugares, com diferentes senseis, o máximo que você puder”. Isso me lembra o que vi em 2010, ao visitar um dojo nas Filipinas. Na ocasião, um praticante me dissera algo como “Aqui em Manila, com alguma frequência, aikidoístas de todos os grupos e de todos os dojos se reúnem em algum parque da cidade para praticarmos todos juntos. Esse é o espírito”.

Talvez haja aí uma lição. Posso estar enganado, mas o Aikido parece transcender as fronteiras dos nossos dojos. De fato, o Aikido parece muito maior do que as certezas arrogantes e verdades estáticas que por vezes nutrimos em nosso próprio ego. O caminho será virtuoso se, com o coração puro, cada praticante compreender que nada pode ser mais importante que o amor incondicional ao próximo; o respeito solene aos que nos antecederam; e a gratidão infinita aos que nos instruíram.

E, acerca disso, as coincidências não deixam de me surpreender. Nos últimos dias em que me dediquei à redação desse texto, três dessas coincidências me incitaram uma reflexão.

Coincidência 1: eis que um repórter perguntou a um antigo mestre japonês, conhecido por ser um exímio preparador de fogos de artifício - arte que, apesar de ter nascido na China, atingiu seu esplendor no Japão (como aliás, aconteceu com diversas outras artes e ofícios). Esse senhor é conhecido como mestre Nomura. E a pergunta a ele endereçada foi a seguinte: “Além da impecável técnica na preparação artesanal, o que mais é preciso para que os seus fogos de artifício sejam tão belos?”. Resposta: “Além da perfeição técnica, é preciso que tenhamos um coração puro”.

Coincidência 2: perambulando pelas vielas do Mercado Municipal, aqui em Curitiba, assisto a uma performance artística do calígrafo japonês Ryuho Hamano. Ele é considerado, hoje, um dos maiores calígrafos do Japão – um verdadeiro mestre na arte milenar do shodo, que, em tradução livre, pode significar algo como ‘o caminho da caligrafia’. Era uma manhã de domingo. Lá estava ele, a preparar cautelosamente seu arsenal de pincéis antes de iniciar sua demonstração. E, da plateia, veio uma curiosa pergunta: “A tinta que o senhor usa é preta, mas seus pincéis estão todos bem brancos. Com o tempo, eles não ficam pretos também? Ou esses pincéis são todos novos?”, pergunta uma senhora anônima. E respondeu o artista: “Muitos desses pincéis eu já uso há décadas. Eles permanecem limpos contanto que o coração de quem os utiliza também seja limpo”.

Coincidência 3: há poucos dias, em São Paulo, tive a sorte de encontrar, por acaso, uma simpática moça que, para minha surpresa, era sensei de Ikebana – a refinada arte japonesa relacionada à preparação de belíssimos arranjos de flores. Seu nome era Dani Mizuta. E após alguns minutos de papo ela mencionou uma frase intrigante: “先生の先生は花でした” (Sensei no sensei wa hana deshita). Em bom português, podemos traduzir isso como “O sensei do sensei é a flor”. Não entendi, a princípio. O que será que a sensei de Ikebana, que apesar de jovem parecia tão sábia, queria dizer com isso? Ela explicou: “Essa frase deve ser entendida no contexto específico do instrutor de Ikebana, aquele que ensina o caminho da flor (kado). É muito importante que esse professor tenha sempre a humildade de saber aprender com flor – e também com a natureza. Por isso, dizemos que o professor do professor (de Ikebana) é, de certo modo, a própria flor. Muitos praticantes dessa arte, após longos anos de estudo, podem acabar se vangloriando por suas composições. Isso gera vaidade. E assim perde-se a nobreza do ideal de vivificar a flor. Para mim, o objetivo dessa arte é simplesmente agradecer por tudo que a Natureza nos proporciona. E, além disso, levar alegria ao ser humano através dos elementos da Natureza. Ao lidar com esses materiais, temos a oportunidade de enobrecer nossos sentimentos”.

A arte dos fogos; o shodo; o Ikebana. Essas três cenas do acaso referem-se a afazeres muito distintos. Mas, em um nível sutil, não posso deixar de imaginar que, de algum modo, esses ensinamentos podem também servir a um praticante de Aikido. Certa vez, sensei Rodolfo comentava que devemos aplicar as técnicas sempre buscando conduzir o uke. Ele usara o termo yūdō (誘導), que significa algo como ‘direção’, ’indução’, ‘condução’. Tamanha foi minha surpresa ao descobrir que a pronúncia do termo yūdō (ゆうどう) também pode ser expressa por dois outros ideogramas: 有道. E, nesse caso, eles significam algo além: ‘pessoa virtuosa’, ou, ainda, ‘aquele que segue o caminho da virtude’.