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Shodo, o caminho da escrita

“Seus pincéis estão bastante limpos. Eles são novos?”, pergunta uma senhora anônima a um grande calígrafo japonês. Parecia uma indagação trivial, mas a resposta surpreendeu: “Muitos desses pincéis eu já uso há décadas; eles permanecem limpos enquanto o coração de quem os utiliza também estiver limpo”, disse o artista. Soa como uma das antigas anedotas orientais. Esse diálogo aconteceu num domingo, quando o calígrafo Ryuho Hamano visitou Curitiba (PR). Ele é considerado um mestre dos traços – sua obra é reverenciada não só no Japão, mas também na Europa e na América do Norte, continentes onde já expôs diversos trabalhos.

Naquela manhã, transeuntes desavisados passeavam pelas vielas do Mercado Municipal da capital paranaense. Poucos entendiam o que se passava ali, quando Ryuho Hamano estendia no chão um pano branco de nove metros quadrados. E, sobre ele, pôs-se a caminhar com os pés descalços – enquanto golpeava o ar com seu arsenal de pincéis embebidos em uma tinta negra a base de água e carvão. “Cuidado”, alertou em bom humor. “Vai voar tinta em vocês.”

A instigante performance artística duraria cerca de meia hora. E, ao final, o pano branco ganhava vida: caracteres antigos, indecifráveis ao comum dos mortais, convidavam o público a uma experiência única de contemplação. Eram kanjis – os complexos símbolos do alfabeto japonês. Os kanjis são usados há séculos não apenas como uma forma de escrita, mas também como uma forma de arte. Essa arte tem nome: shodo. Em tradução livre, é algo como ‘o caminho da escrita’, ou, quem sabe, ‘a senda da caligrafia’.

É irônico como uma arte milenar do oriente possa lembrar – e tanto – uma performance de arte contemporânea. A espontaneidade, o improviso, o caráter imprevisível… Em uma performance de caligrafia japonesa, o artista raramente tem um plano determinado. Ao seguir o fluxo de sua consciência, amparado pelo conhecimento profundo dos escritos antigos, ele transforma cada um de seus traços num registro espontâneo do agora.

Na plateia, Ryuho Hamano notou duas crianças. Ele então as convidou para que o ajudassem a completar a obra, segurando duas das pontas do pano enquanto o artista dava seus retoques finais.

Mas, afinal, o que significariam aqueles símbolos negros tão irregulares e quase anárquicos? “Esses caracteres são de difícil leitura até mesmo para um japonês, pois muitos deles são tão antigos que raramente os usamos”, explicou o calígrafo. A tinta ainda estava molhada quando Hamano revelou o significado do que acabara de grafar: “O que escrevi aqui foi um poema tradicional de mil e duzentos anos de idade”. Seria uma mensagem hermética de profundo significado literário ou filosófico? Nada disso. “Esse poema fala sobre o maior dos tesouros. Não é o ouro, não é a prata. É a infância, são as crianças”. A sutileza daqueles versos era de uma simplicidade crua, quase primitiva, reveladora de uma humildade intelectual que parece ter se perdido no tempo.

A obra foi doada à Fundação Cultural de Curitiba, onde ficará permanentemente exposta. O evento foi parte das comemorações que celebram os 120 anos de diplomacia entre Brasil e Japão.

Dizem algumas lendas que, na China, os ideogramas tiveram origem quando feiticeiros e sábios lançavam ao fogo, aleatoriamente, fragmentos de ossos de dragão. Esses fragmentos formariam figuras, que, com o tempo, deram início a essa instigante tradição pictórica. Outras correntes, menos poéticas e mais plausíveis, sugerem que os caracteres surgiram a partir de formas elementares de representação gráfica – que evoluíram de modo que, a partir de certo momento, deixaram de ser figuras óbvias e passaram a atingir certo grau de abstração.

A origem dessa forma de escrita se perde na aurora dos tempos. Ainda hoje ela intriga e encanta, e a arte do shodo é um dos tesouros culturais do Japão – e, é claro, da China também, já que foi lá que tudo começou. Mas essa é uma outra história.

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